Vai ser gol !

narrou o radialista, mas o atleticano que assistia não viu ou ouviu a conclusão da jogada. Não ouviu, também, o grito alucinado da torcida. Tampouco pôde perceber que tremia de alegria o Gigante da Pampulha. Porque naquela hora deixou de existir a visão, deixou de existir a audição, deixou de existir o tato e até o Mineirão deixou de existir, só existindo o gol do Atlético.

sábado, 14 de junho de 2008

o Atlético x Náutico de 30 de abril de 2008

o jogo era válido pelas oitavas-de-final da Copa do Brasil de 2008 e o Atlético, tendo perdido o primeiro jogo em Recife por 3 a 2, precisava de uma vitória por dois gols de diferença no Mineirão ou - graças ao critério de desempate que dá a classificação, em caso de saldo de gols igual, à equipe que tiver marcado mais gols fora de casa - uma vitória por 1 a 0 ou 2 a 1. o Náutico não tinha um grande time, e tampouco o Atlético, mas as chances de avanço na competição eram gigantes.

a torcida atleticana, porém, não estava muito preocupada com isso. o Atlético havia sido humilhado faziam três dias pelo Cruzeiro na final do Campeonato Mineiro, com a maior derrota até então para aquele rival, 5 a 0, num daqueles jogos pra atleticano queimar a bandeira e dizer que nunca mais vai ao estádio.

até a terça-feira (o jogo contra o Náutico era na quarta) a torcida atleticana andava cabisbaixa, literalmente, pelas ruas, já zonza de tanto suportar pacificamente a provocação cruzeirense. desacreditados com o time e com a expressa resolução de "não voltar mais ao campo até que o Atlético tenha um time que faça por merecer", encontrei-me com três atleticanos - dentre eles o pai de um amigo meu, experiente na sofrida atividade de ser atleticano - que, antes animados em comparecer ao Atlético versus Náutico, mostraram-se apáticos: "ah, depois desse jogo contra o Cruzeiro aí...".

deixamos pra ir na última hora, convictos de que o Mineirão estaria deserto. mas ao nos aproximarmos do campo, já se percebia um engarrafamento ligeiramente anormal. faltando quinze minutos para o jogo, ainda estávamos parados em meio àquele mar de carros, um dos convivas desce e vai tentar comprar o ingresso, que outrora pensávamos ser de fácil compra, mas agora temíamos pelo tamanho da fila. após o estacionamento do carro e o reencontro do enviado às filas, a situação era ainda mais inimaginável: haviam acabado os ingressos da arquibancada e só restavam os de arquibancada inferior, e nosso comprador-de-ingressos notoriamente havia apanhado na disputa pelos tais ingressos; mas era uma boa notícia, a Massa havia comparecido.

entramos, em meio a um punhado de pessoas para uma minúscula abertura nos portões do Mineirão, atrasados mas felizes. lá dentro, vários dos atleticanos que disseram não ter a menor vontade de comparecer a esse jogo. metade do estádio estava ocupado por um palco montado para um show em homenagem o Dia do Trabalhador, no dia seguinte ao jogo, a outra metade era ocupada por 25.149 exemplares do verdadeiro torcedor, que, durante o jogo, cantou, gritou, apoiou, chorou, quase morreu de agonia com as infinitas possibilidades de ataque atleticano desperdiçadas e com as oito ou nove bolas na trave que a equipe do Náutico chutou - que, se concretizadas, certamente poriam fim às chances do Clube Atlético Mineiro de prosseguir na competição -, e enfim, perdeu os sentidos quando foi gol, gol do Atlético.

placar final: 1 a 0, Galo classificado, mais de 25 mil pessoas em estado de graça e a notícia de um ataque cardíaco - mas sem conseqüências maiores e piores - em um homem de uns 20 e poucos anos, atleticano.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

impressões acerca da derrota por 3x2 do Atlético perante o Flamengo na final do Brasileiro de 1980

assisti a uma gravação do jogo, apenas desse jogo, quase 38 anos depois do ocorrido, e aqui discorro sobre o tal:

Atlético
- Éder jogou muito mal, errou muitos passes e perdeu três gols quase feitos. parecia afobado, como o Éder Luiz é às vezes.
- Jorge Valença, o lateral-esquerdo, é péssimo, até Leandro Smith joga melhor que esse sujeito. Deus me livre. não sabe conduzir a bola, não sabe passar, não sabe chutar e sequer tentou cruzar (por sorte).
- Osmar, zagueiro, apesar de ter mostrado segurança durante todo o jogo, deu o primeiro gol pro Flamengo ao sair conduzindo a bola toscamente da defesa e perder no meio-campo depois de adiantar demais (jogada Márcio Araújo). a zaga ficou vazia e Zico lançou instantaneamente para Nunes marcar.
- a contusão de Luisinho prejudicou bastante o sistema defensivo do Atlético, tendo o terceiro gol do flamengo saído pelo lado da defesa em que Luisinho estaria, e numa bela jogada de Nunes, que enganou o (que me parece) bastante inexperiente lateral-direito Silvestre (que havia entrado no segundo tempo, substituindo Orlando).

Flamengo
- Paulo Cesar Carpegianni é ruim demais. falhou no primeiro gol do Galo e tocou duas bolas para Éder que quase resultaram em gols atleticanos, não fosse a incompetência de Éder na finalização.

Procópio
- nosso técnico parecia incorporar o espírito atleticano de paixão e vibração, sem essa de frieza e calma, quando o jogo era 2x1 pro Flamengo, foi entrevistado e respondeu ao repórter, tenso: "quem tem Deus no coração tem tudo".

Juiz
- não me pareceu ladrão ou qualquer coisa assim. até vinha apitando bem, apesar de ter amarelado todo o time do Galo. quem pareceu ladrão foi o bandeira, que deu impedimento contra o Atlético num lance em que não houve, clara e decididamente, e que daria a virada por 3x2 ao Galo, acabando com o jogo.
- logo após o lance do impedimento, Reinaldo, ao que tudo indica, deve ter ofendido o juiz (o que ele deveria compreender e relevar, dado o clima do jogo), mas deve ter ofendido o juiz muito feio, porque foi expulso direto (até aí, tudo bem, já que o Atlético nem conseguia fazer a bola chegar a Reinaldo mesmo, e ele já estava sentindo a perna). o problema é que o juiz se descontrolou e expulsou, depois de uma invasão maciça do campo, o técnico Procópio, a comissão técnica e todo o banco de reservas do Galo. nessa medida, foi completamente injusto, já que, apesar do atlético não poder mais realizar substituições e tecnicamente isso não fazer diferença, desestabilizou, provavelmente, todo o time em campo, que olhava para o banco e não via mais técnico, auxiliar técnico ou colegas no banco incentivando. depois disso, só deu Flamengo, e o Galo se defendendo desorganizadamente, até o fatídico terceiro gol.

Acréscimos
- depois dos 45 do segundo tempo, quando todos já comemoravam o título do Flamengo, o árbitro expulsou Chicão e Palhinha, deixando o Atlético com 8 jogadores em campo. e, logo em seguida, Pedrinho adentrou sozinho e driblando na área flamenguista (que tinha três defensores) e por pouco, por muito pouco, não faz um golaço que, sem querer viajar em hipóteses não concretizadas, mas já viajando, transformaria o confuso jogo da final do Campeonato Brasileiro de 1980 no título mais heróico da história do futebol mundial, e com toda justiça do mundo.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

o Atlético x Tupi de 13 de abril de 2008

28.976 pagantes compareceram ao primeiro jogo da semifinal do Campeonato Mineiro de 2008 entre Atlético - terceiro colocado na primeira fase - e Tupi, de Juiz de Fora, - segundo colocado. estando meio desacreditado o time belorizontino, parte da imprensa já apostava numa final entre Cruzeiro e Tupi, ficando pelo caminho o Atlético. quando começa, portanto, o jogo, e, com a massa atleticana gritando, logo aos 5 minutos, um gol de falta, de fora da área, para o Tupi.

misteriosamente, aquilo que deveria provocar a mais completa desilusão na torcida preta e branca inflama-a ainda mais. "o Galo é o time da virada / o Galo é o time do amor" começa a ser entoado logo após os dez segundos de suspiro pelo gol tomado, numa altura que chega quase a abafar a narração televisiva do gol juizforano, assistida depois do fim do jogo por mim. o canto laudatório da torcida empurra o time, que faz, cinco minutos depois, o gol do empate. permanece inflamada a torcida, em perfeita sintonia com o time em campo, que faz, no final do primeiro tempo, mais dois gols, sendo um deles incorretamente anulado.

voltam as equipes para o segundo tempo, mais morno, o Tupi empata com mais um gol de fora da área, e novamente a torcida volta a apoiar e acreditar na virada, ainda mais quando é efetuada a entrada do promissor-jovem-craque Renan Oliveira na equipe. quando Renan Oliveira recebe de Danilinho e marca, meio de-qualquer-jeito, o gol da vitória atleticana. e quando Renan Oliveira realiza aquele drible, fingindo ir pegar a bola, mas deixando a passar e correndo para o outro lado, para assim recuperar a posse da redonda, já à frente do seu desnorteado marcador, a massa das arquibancadas se lembra (mesmo a maioria nunca tendo chegado a ver de fato) de seu maior ídolo e inspiração, um centroavante, como Renan Oliveira.

vitória atleticana por 3 a 2.

o Atlético x Flamengo de 4 de agosto de 2007

o Atlético ia jogar contra seu rival histórico do Rio de Janeiro, o Flamengo, numa partida válida pelo primeiro turno do Campeonato Brasileiro de 2007. o jogo, um clássico com tradição oriunda principalmente de confrontos na década de 80 entre os times (época em que até amist... partidas sem cunho oficial já haviam chegado a atrair mais de 100 mil pagantes), conservara sua importância para as torcidas até aquele dia (pelo menos), fato comprovado pela inexistência de estatística que comprovasse público menor do que 17 mil pagantes em um jogo, qualquer que fosse, entre Atlético e Flamengo.

mas aquela nona rodada do Campeonato Brasileiro assombrava o tabu. o time do Atlético não vinha bem no campeonato, e uma tentativa de tomada de novo rumo, iniciada com uma vitória por 4 a 1 em casa sobre o Figueirense havia sido sepultada por uma acachapante derrota por 4 a 2 para o Cruzeiro (inclusive uma quase-virada atleticana ocorrida nesse jogo terminara com a perda de um pênalti, o que destruira ainda mais as esperanças alvinegras), e o jogo contra o Flamengo estava marcado para uma quarta-feira, às 4 horas da tarde.

ora, os jogos de quarta-feira são sempre noturnais. os torcedores também trabalham, estudam e têm outras obrigações. marcar um jogo de tamanha importância para um horário tão incomum e imprório era o mesmo que declarar que só venderia 3 mil ingressos e pedir à torcida para não comparecer. a marcação do jogo para esse horário havia, por antecipação, já anunciavam os jornais e as rádios, quebrado do tabu dos 17 mil. o clássico entre Atlético e Flamengo já não tinha mais a mesma importância, chegaram a afirmar algumas vozes da imprensa. "acho que não vai ter jeito de ir" e "muito ruim esse horário" eram declarações comuns em conversas entre atleticanos e a quantidade de ingressos vendidos antecipadamente nem fora divulgada, de tão pequena.

chegando ao Mineirão com pouquíssimo tempo calculado para compra de ingressos, na expectativa de encontrar monotonia e bilheterias desertas, eis que me deparo com uma multidão de pessoas vestindo os trajes alvinegros, muita, muita confusão nos entornos do estádio. toda a cidade havia, parece, decidido a comparecer na última hora, ninguém possuía ingresso de antemão, o engarrafamento era gigante e os transeuntes tinham dificuldades para se esgueirar no meio da algazarra. atleticanos faltando ao serviço ou matando aula e atleticanos que normalmente ficariam em casa num jogo desses estavam presentes. inclusive um amigo meu perdeu sua carteira (mas depois recuperou, com uma boa alma anônima encontrando-a e devolvendo-a no dia seguinte) no meio da desordem que se formou em volta das poucas bilheterias - que, como toda Belorizonte, subestimaram a paixão preta e branca.

enfim, com toda a massa apenas terminando de entrar no gigante da Pampulha ao final do primeiro tempo, assistiram e empurraram o Atlético a um empate por um a um - num jogo feio, mas com raça e transpiração de sobra do lado alvinegro -, 21.370 torcedores, e o tabu não foi quebrado.

arquivo do blogue