o jogo era válido pelas oitavas-de-final da Copa do Brasil de 2008 e o Atlético, tendo perdido o primeiro jogo em Recife por 3 a 2, precisava de uma vitória por dois gols de diferença no Mineirão ou - graças ao critério de desempate que dá a classificação, em caso de saldo de gols igual, à equipe que tiver marcado mais gols fora de casa - uma vitória por 1 a 0 ou 2 a 1. o Náutico não tinha um grande time, e tampouco o Atlético, mas as chances de avanço na competição eram gigantes.
a torcida atleticana, porém, não estava muito preocupada com isso. o Atlético havia sido humilhado faziam três dias pelo Cruzeiro na final do Campeonato Mineiro, com a maior derrota até então para aquele rival, 5 a 0, num daqueles jogos pra atleticano queimar a bandeira e dizer que nunca mais vai ao estádio.
até a terça-feira (o jogo contra o Náutico era na quarta) a torcida atleticana andava cabisbaixa, literalmente, pelas ruas, já zonza de tanto suportar pacificamente a provocação cruzeirense. desacreditados com o time e com a expressa resolução de "não voltar mais ao campo até que o Atlético tenha um time que faça por merecer", encontrei-me com três atleticanos - dentre eles o pai de um amigo meu, experiente na sofrida atividade de ser atleticano - que, antes animados em comparecer ao Atlético versus Náutico, mostraram-se apáticos: "ah, depois desse jogo contra o Cruzeiro aí...".
deixamos pra ir na última hora, convictos de que o Mineirão estaria deserto. mas ao nos aproximarmos do campo, já se percebia um engarrafamento ligeiramente anormal. faltando quinze minutos para o jogo, ainda estávamos parados em meio àquele mar de carros, um dos convivas desce e vai tentar comprar o ingresso, que outrora pensávamos ser de fácil compra, mas agora temíamos pelo tamanho da fila. após o estacionamento do carro e o reencontro do enviado às filas, a situação era ainda mais inimaginável: haviam acabado os ingressos da arquibancada e só restavam os de arquibancada inferior, e nosso comprador-de-ingressos notoriamente havia apanhado na disputa pelos tais ingressos; mas era uma boa notícia, a Massa havia comparecido.
entramos, em meio a um punhado de pessoas para uma minúscula abertura nos portões do Mineirão, atrasados mas felizes. lá dentro, vários dos atleticanos que disseram não ter a menor vontade de comparecer a esse jogo. metade do estádio estava ocupado por um palco montado para um show em homenagem o Dia do Trabalhador, no dia seguinte ao jogo, a outra metade era ocupada por 25.149 exemplares do verdadeiro torcedor, que, durante o jogo, cantou, gritou, apoiou, chorou, quase morreu de agonia com as infinitas possibilidades de ataque atleticano desperdiçadas e com as oito ou nove bolas na trave que a equipe do Náutico chutou - que, se concretizadas, certamente poriam fim às chances do Clube Atlético Mineiro de prosseguir na competição -, e enfim, perdeu os sentidos quando foi gol, gol do Atlético.
placar final: 1 a 0, Galo classificado, mais de 25 mil pessoas em estado de graça e a notícia de um ataque cardíaco - mas sem conseqüências maiores e piores - em um homem de uns 20 e poucos anos, atleticano.
narrou o radialista, mas o atleticano que assistia não viu ou ouviu a conclusão da jogada. Não ouviu, também, o grito alucinado da torcida. Tampouco pôde perceber que tremia de alegria o Gigante da Pampulha. Porque naquela hora deixou de existir a visão, deixou de existir a audição, deixou de existir o tato e até o Mineirão deixou de existir, só existindo o gol do Atlético.
sábado, 14 de junho de 2008
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