narrou o radialista, mas o atleticano que assistia não viu ou ouviu a conclusão da jogada. Não ouviu, também, o grito alucinado da torcida. Tampouco pôde perceber que tremia de alegria o Gigante da Pampulha. Porque naquela hora deixou de existir a visão, deixou de existir a audição, deixou de existir o tato e até o Mineirão deixou de existir, só existindo o gol do Atlético.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

o Atlético x Flamengo de 4 de agosto de 2007

o Atlético ia jogar contra seu rival histórico do Rio de Janeiro, o Flamengo, numa partida válida pelo primeiro turno do Campeonato Brasileiro de 2007. o jogo, um clássico com tradição oriunda principalmente de confrontos na década de 80 entre os times (época em que até amist... partidas sem cunho oficial já haviam chegado a atrair mais de 100 mil pagantes), conservara sua importância para as torcidas até aquele dia (pelo menos), fato comprovado pela inexistência de estatística que comprovasse público menor do que 17 mil pagantes em um jogo, qualquer que fosse, entre Atlético e Flamengo.

mas aquela nona rodada do Campeonato Brasileiro assombrava o tabu. o time do Atlético não vinha bem no campeonato, e uma tentativa de tomada de novo rumo, iniciada com uma vitória por 4 a 1 em casa sobre o Figueirense havia sido sepultada por uma acachapante derrota por 4 a 2 para o Cruzeiro (inclusive uma quase-virada atleticana ocorrida nesse jogo terminara com a perda de um pênalti, o que destruira ainda mais as esperanças alvinegras), e o jogo contra o Flamengo estava marcado para uma quarta-feira, às 4 horas da tarde.

ora, os jogos de quarta-feira são sempre noturnais. os torcedores também trabalham, estudam e têm outras obrigações. marcar um jogo de tamanha importância para um horário tão incomum e imprório era o mesmo que declarar que só venderia 3 mil ingressos e pedir à torcida para não comparecer. a marcação do jogo para esse horário havia, por antecipação, já anunciavam os jornais e as rádios, quebrado do tabu dos 17 mil. o clássico entre Atlético e Flamengo já não tinha mais a mesma importância, chegaram a afirmar algumas vozes da imprensa. "acho que não vai ter jeito de ir" e "muito ruim esse horário" eram declarações comuns em conversas entre atleticanos e a quantidade de ingressos vendidos antecipadamente nem fora divulgada, de tão pequena.

chegando ao Mineirão com pouquíssimo tempo calculado para compra de ingressos, na expectativa de encontrar monotonia e bilheterias desertas, eis que me deparo com uma multidão de pessoas vestindo os trajes alvinegros, muita, muita confusão nos entornos do estádio. toda a cidade havia, parece, decidido a comparecer na última hora, ninguém possuía ingresso de antemão, o engarrafamento era gigante e os transeuntes tinham dificuldades para se esgueirar no meio da algazarra. atleticanos faltando ao serviço ou matando aula e atleticanos que normalmente ficariam em casa num jogo desses estavam presentes. inclusive um amigo meu perdeu sua carteira (mas depois recuperou, com uma boa alma anônima encontrando-a e devolvendo-a no dia seguinte) no meio da desordem que se formou em volta das poucas bilheterias - que, como toda Belorizonte, subestimaram a paixão preta e branca.

enfim, com toda a massa apenas terminando de entrar no gigante da Pampulha ao final do primeiro tempo, assistiram e empurraram o Atlético a um empate por um a um - num jogo feio, mas com raça e transpiração de sobra do lado alvinegro -, 21.370 torcedores, e o tabu não foi quebrado.

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